






















Lapso
Mesmo quem perdeu o perene casamento do vento com o tempo não irá se surpreender que ambos têm como amante o esquecimento. Lembrar é, sempre, um ato de seleção – e toda seleção é também um gesto de esquecimento. A exposição "Lapso" parte desse jogo para investigar o que se opera nessa fronteira frágil.
Aqui, o desinflar dos balões é um presente e um guia. Pois é de corpo cada vez mais mole, transmutando ar em vento, que nos tornamos porosos, abertos a um certo esquecimento de nós mesmos, uma mente disponível para receber as narrativas que as obras carregam. Esta é uma exposição que pede escuta, no sentido radical proposto por Simone Weil: uma atenção desarmada, pronta para ser impressa pelo outro.
Ao reunir artistas que flertam com o eterno estado de presença e os gestos em valsa com a memória, percebemos o tempo como um relevo sobre suas obras. Da parede ao chão, registros do viver, sejam eles em metal, resina, lona, papel, pixels ou no corpo em performance, se apresentam disponíveis a jogo, a estarem à mercê da interpretação. Serão remontados em nossos pensamentos, ganharão novos contornos, servirão como referência, soprarão leveza, provocarão revolta ou, simplesmente, serão esquecidos. Perpetuadas pela durabilidade da matéria, as artes lutam contra a fugacidade, somatizando em nossos corpos porosos os impactos de histórias diversas e dissidentes.
Durante cinco dias, a Casa Réstia verá seus limites reordenados por essas memórias assentadas. E, ativamente, a exposição se desdobrará: a cada dia, uma nova lente curatorial sobre uma nova disposição das mesmas obras. Os caminhos e as narrativas se ramificarão.
Dessas palavras, faço um convite a todes: para que se aproximem, circulem e permitam-se ao lapso – não como falha, mas como abertura para sentir o vento que passa entre.
Yelena Gattai
Lapse
Even those who have lost sight of the enduring marriage between wind and time will not be surprised to learn that both share forgetfulness as a lover. Remembering is always an act of selection—and every act of selection is also an act of forgetting. Lapse begins from this interplay to investigate what takes place along that fragile boundary.
Here, the deflating balloons are both a gift and a guide. As their bodies gradually soften, transforming air into wind, we too become porous, open to a certain forgetting of ourselves—a mind made available to receive the narratives carried by the works. This is an exhibition that calls for listening, in the radical sense proposed by Simone Weil: a disarmed attention, ready to be shaped by the other.
Bringing together artists whose practices move between a perpetual state of presence and gestures that waltz with memory, the exhibition reveals time as a terrain traced across their works. From wall to floor, traces of lived experience—whether in metal, resin, canvas, paper, pixels, or the performing body—are offered up to play, to interpretation. They will be reassembled in our thoughts, take on new contours, become points of reference, breathe lightness, provoke revolt, or simply be forgotten. Sustained by the durability of matter, art resists transience, absorbing into our porous bodies the impact of diverse and dissident histories.
For five days, Casa Réstia will see its boundaries rearranged by these settled memories. The exhibition will actively unfold: each day, a new curatorial lens will offer a new arrangement of the same works. Paths and narratives will continue to branch out.
With these words, I invite everyone to come closer, move through the space, and allow themselves to embrace lapse—not as failure, but as an opening to feel the wind that passes between.
Yelena Gattai
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